Porno grafia

Eu vou te destruir com todos os pensamentos que não posso confessar.

Eu vou sussurrar aqui cada parte do seu corpo que eu gostaria de engolir.

Eu vou te explodir, como você implode a minha mente cada vez que respira.

Eu vou expurgar cada delicioso vai-e-vem mental que você me provoca.

Eu vou jurar que não é nada disso, mas eu vou usar minhas mãos pra você em qualquer banheiro feminino.

Eu vou calar essa incontrolável vontade de dizer palavras impublicáveis.

Eu vou ignorar que ainda é cedo, que tem gente, que tem olhos.

Eu vou brincar com as palavras no céu da minha boca, porque são as únicas coisas lá. Por enquanto.

Eu vou aumentar seu ritmo e seu batimento.

Eu vou fingir que não sei o que você quer quando olha pra mim desse jeito.

Eu vou te invadir e gozar. E de novo e de novo e de novo, enquanto ce tiver afim.

Eu vou fantasiar e depois escrever sobre isso e divulgar.

Eu vou pornografar você. E eu.

 

 

 

 

 

 

 

 

O que eu diria para a Quel de 13 anos ou coisas que eu gostaria que alguém tivesse me dito quando eu tinha 13 anos.

Aprenda a tocar algum instrumento. Se eu pudesse te dar algum conselho que  um dia vai ser muito útil na sua vida é esse: toque alguma coisa. Você não entende agora, mas a sua relação com a música vai ficar muito mais íntima e aprender a tocar fica mais difícil, então se não der pra aprender aos 13, pelo menos não deixe essa vontade morrer dentro de você.

Você é uma pessoa muito legal, mas não acredita nisso. Seus gostos particulares e seu jeito explosivo, vão manter perto de você só quem realmente importa. E aos 24, você será uma pessoa legal, plena, mas ainda não plenamente realizada.Isso vai levar um tempo e 24 anos ainda não são suficientes, por isso não se preocupe com o sucesso aos 13. Aliás, sucesso é um conceito superestimado.

Brigue menos, menos com sua mãe, menos com seus amigos, menos com você, menos com seu corpo. Mas não deixe de comprar as brigas relevantes pra você. Brigue com o machismo, brigue com o racismo, brigue, chute, arranhe, meta o pé na porta. Isso vai afastar algumas pessoas de você, mas como disse lá em cima, vai manter por perto só quem realmente importa.

Eu não tenho nenhum conselho pra te dar sobre o amor.
Você vai se apaixonar e desapaixonar muitas vezes, você é uma adolescente. Você só vai morrer de amores pouquíssimas vezes, não enche uma mão. Então não se preocupe com isso. Não fosse essas paixonites e esses amores, talvez hoje você não seria quem é e eu não quero estragar a surpresa, mas você vai encontrar o amor aos 21.

Construa laços fortes com as mulheres a sua volta. Em algum momento da sua adolescência você vai ouvir falar sobre o feminismo e vai amar, deixe isso crescer em você. Passe todo o tempo que puder com a sua avó e visite-a sempre que estiver com saudades, os avós se vão cedo demais e qualquer tempo com eles ainda será pouco.

Aos 24, você vai estar escrevendo um texto pra você no passado, embora nada possa ser mudado, se a máquina do tempo for inventada quero que este texto chegue até você. Não mude nadinha, porque o lugar aonde estamos agora é, finalmente, bom. E eu não tenho garantias de que se você tivesse feito diferente e seguido esses conselhos, você seria feliz como agora. Estou te contando essas coisas, porque não vai ser fácil, tampouco impossível.

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Faça boas escolhas. Com amor.

Eu não sei como começar este texto.

Belo Horizonte, sexta-feira, 15 de julho, 17:52. Escrevo as horas e os minutos pra ter certeza de que ainda estou aqui enquanto escrevo.

– Quanto pesa um caminhão?

Sinto que um acabou de passar por cima de mim, mas ainda estou aqui.
Hoje era pra ser o mais feliz dos dias e foi até poucos minutos, até mais ou menos 16:59.
Aí veio o caminhão e o horror e o medo e a angústia e o medo de existir e o de deixar de existir. Não sei qual é o pior hoje.

Ouço Jónsi & Alex, tentando aliviar e desamassar meu peito esmagado. Tô tentando me desafogar. Tô desfazendo um nó na garganta de cada vez, foram 84 até agora. Escrevo pra ter certeza de que ainda estou aqui.

Escrevo pra não enlouquecer, porque é a única coisa que sobrou pra fazer.

– E o caminhão? Já foi?

A notícia é de ontem e eu passei um dia inteiro sem saber que 84 pessoas foram atropeladas por um caminhão. A notícia me atropelou.

E eu não sei como terminar este texto. Acho que agora a parte em que ele deixa de existir.

Reescreve Quel: Fica ao menos o tempo de um cigarro?

As pessoas sempre partem. Não é certo. Nem de longe é justo, mas é um fato. As pessoas sempre vão embora pelas mais variadas razões. E cá estou escrevendo sobre partidas. Isso porque tem sido frequente na minha viagem ver as pessoas indo em outra direção, pegando o caminho mais rápido pra longe de mim. Muitas delas vão e ninguém se dá conta de que partiram. Mas isso não acontece comigo, ninguém sai da minha vida sem que seja notado, talvez por isso eu sofra mais. É, é por isso sim.

Não sei abandonar e deixar de amar nunca foi minha praia. Mas os motivos de quem fica não interessam pra quem vai, nada que quem permanece faça é capaz de fazer quem está indo, quem está determinado a partir, desistir. Geralmente, quem parte é obstinado e não dá a mínima, fica surdo ou seletivamente surdo aos apelos: fica?
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Fica seletivamente insensível também, faz o possível pra não sentir o amor do outro, porque esse amor é coercitivo. Outro fato. Nem vem dizer que não, já senti na pele, na alma, na carne-viva os estragos que ser (mal?)amado pode fazer. Eu já usei o amor como argumento, pra tentar fazer alguém ficar. Não funcionou! Mas o amor era só o que eu tinha, era minha ultima arma, foi só o que me restou, eu não tinha mais NADA pra oferecer.

Mesmo assim, não bastou. Foi embora e levou na mala os pedaços do meu coração que nem tem coragem de devolver. Como quando acidentalmente cai café sobre um documento não plastificado e não há outra saída a não ser conseguir outro. Pudera meu coração ser plastificado, blindado, imune a  partidas. Não é. E talvez por isso eu sofra mais. É , é por isso sim.

Bom, talvez não seja imune e nunca vá ser, mas a gente acaba se acostumando a ver as pessoas indo e aceitar. A gente acaba vivendo essa vida torta onde ninguém realmente faz parte do mundo do outro. Estamos sempre de passagem, de preferencia com passagem comprada para um outro país, pra não ter que ver o estrago que fez. E é mais confortável não ver mesmo, seria como olhar uma casa toda bagunçada com vasos quebrados e que não podem ser consertados. Ninguém gosta de ver um estrago tão grande. Mas a gente acaba se acostumando. E talvez por isso, eu sofra menos que no primeiro parágrafo. É, é por isso sim.

Um tempo lindo pra ouvir 5 bandas novas

No site Facebook, o novo templo das correntes depois do fim do saudoso Orkut, está rolando um desafio – acho ridículo chamar assim, porque é fácil falar mal – para citar uma número x de bandas que a gente não goste. Ou seja, uma bobagem danada pra irritar os fãs de Los Hermanos e Engenheiros do Havaí, as bandas mais odiadas – não por mim – por aí.

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O cara daquela banda: Loser Manos.

Decidi fazer a diferentona e usar meu tempo pra dividir com vocês 5 bandas independentes que eu tenho ouvido ultimamente e que eu acho que vocês também deveriam ouvir, farei isso todo mês ou a cada quinze dias, então vamos lá.

1 – E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – EATNMPTD

EATNMPTD é uma bandaça de post-rock instrumental tão grande quanto o nome. Eles são de SP e ontem pude ouvir ao vivo pela 1ª vez em BH (a segunda vez deles pelas bandas de cá). O som é hipnotizante, com sintetizadores, pedais, bateria microfonada e um audiovisual que é um elemento a mais no show, me lembrou muito uma banda que eu acho fantástica, que são os ingleses do Maccabees (ouçam também). Pra começar recomendo o EP Medo de Morrer | Medo de Tentar.

2 – GORDURATRANS

O duo gorduratrans talvez seja o representante mais proeminente do rock triste no Rio. Com letras melancólicas com as quais é muito fácil se identificar, o gordura toca um noise rock impecável. Se você tiver a oportunidade de ver esses caras ao vivo, faça isso. O disco “repertório infindável de dolorosas piadas” foi lançado em setembro de 2015 pela Bichano Records e todo gravado em casa, prática cada vez mais comum e que tem funcionado bem para as bandas desse rolê. Para começar, recomendo VCNVQND.

3 – VALCIÃN CALIXTO

Aonde se lê bandas, leia-se: também pode artista solo foda. FODA também é o nome do álbum lançado pelo Valciãn que é membro da Geração TrisTherezina de Teresina (PI). Conversando com Diego (El Toro Fuerte), concluímos que se existe um cara que realmente mistura tudo, esse cara é o Valciãn. O que nós, pobres seres do sudeste fazemos é mera tentativa perto do que esse cara faz. As narrativas do álbum tratam de temas dolorosos e contemporâneos, extrapolando qualquer superficialidade da música misturados em afropunk, noise, brega e até axé. Valciãn é profundo, Valciãn é foda. Comece por “Sobre Meninas e Porcos”.

4 – FERNANDO MOTTA

O Fernando Motta (Ex-Young Lights), ou só Nando acabou de lançar seu primeiro trabalho solo “Andando sem olhar pra frente”, antes, havia lançado o single “Céu” que já se pode dizer ser um hino do rock triste. As guitarras que partem de acordes delicados e depois explodem nos ouvidos com um noise arrebatador, dão ao trabalho do Nando Motta uma sonoridade muito particular. O recém-lançado álbum foi produzido pelo João Carvalho (El Toro Fuerte), talvez por isso tenha um quê de experimental presente em vários momentos do disco. Já elegi minha preferida, mas vocês podem começar com o clipe de céu, produzido pelo Jonathan Tadeu.

5 – EL TORO FUERTE

A El Toro Fuerte jamais poderia estar fora dessa primeira lista. É o trabalho que eu conheço mais de perto, que acompanhei cada composição e que vi nascer num tiro que deixou BH em polvorosa. Lançado pelo Bichano Records o debut “Um tempo lindo para estar vivo” é um irônico título se considerarmos o momento atual do país, mas nada irônico se considerarmos a produção musical que tá rolando em 2016, especialmente pras bandas que tem um conceito estético ligado à melancolia. As letras altamente confessionais, tornam a identificação quase inevitável. Me parece que as pessoas estavam esperando por alguém que falasse da tristeza da forma que a El Toro Fuerte faz, com barulho e uma poesia rasgada. Comece por Sur.

Escolhi as bandas/artistas um pouco com o coração e um pouco com meu ouvido bom. Ouçam e postem suas considerações, pode falar que não gostou também, que com a gente isso não dá nada. Mas conheçam, tem muita coisa sendo produzida e eu só estou começando.

O monstro do TCC ou Isso também vai acontecer com você.

Eu pensei que não fosse acontecer comigo. Pensei que a minha capacidade mínima de organização em meio caos que parece ter sido toda minha vida iria servir para fazer com que eu não fosse mais uma vítima do monstro do TCC, mas eu estava redondamente enganada, redondamente mesmo, porque ele começou acabando com o tempo que eu tinha pra me exercitar.

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Imagem meramente ilustrativa, podendo ser pior que isso.

E a verdade é que acontece com todo mundo que faz o próprio trabalho de conclusão de curso. O monstro do TCC vai engolir seu tempo e às vezes até seu bom humor. É bem provável que você esqueça do aniversário de amigos queridos e até o da sua mãe ou do seu namorado. Dá pra colocar a culpa no TCC? Dá. Mas não faça isso sempre. Porque as pessoas podem começar a achar que é mera desculpa, quando a gente sabe que não é. Daí preparei algumas dicas – que nem sei se vão funcionar –  já que ainda estou no ring com o monstro, pra ver se a gente sai vivo dessas e sobrevive, tá bom?

1 – Faça anotações

Se a sua memória já não era muito boa antes, com o TCC você  vai esquecer até o seu nome e o endereço de casa.

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Mais alguma coisa?

2 – Informe a todos sobre esse momento difícil da sua vida

Não quer dizer que as pessoas vão ser mais gentis por causa disso, mas pelo menos você avisou.

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Não está sendo fácil.

 

3 – Não tenha vergonha de pedir ajuda

Nesse momento, você não pode se dar a esse luxo, querida!

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Entendeu?

 

4 – Peça desculpas. Sempre.

Você vai pisar na bola várias vezes. Esquecer compromissos, furar nos rolês, perder a hora. Peça desculpas e siga em frente, tem outros vacilo.

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5 – Há coisas que você pode deixar para o próximo semestre

Tipo casar, tirar férias, viajar, ter vida social, essas coisas.

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Conforme-se. É só um semestre e você não nasceu no bar, vai sobreviver 6 meses longe dele.

6 – Foca no resultado

Porque no fim das contas tudo que importa é ficar livre dessa mer formar!

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É teeeeeetra!

 

El Toro Fuerte – A nova cena

Dizem que quando amamos alguém, nós nos realizamos nos sonhos e conquistas dessa pessoa. A felicidade do outro é, também, a nossa. Nada disso significa que precisamos perder nossa individualidade ou que tenhamos de abrir mão dos nossos próprios objetivos, mas, às vezes é só às vezes, torna-se necessário colocar o sonho do outro em perspectiva, como uma prioridade para a realização dos seus próprios.

Hoje, divido diretamente minha felicidade com outras 5 pessoas: Gabriel, Diego, João, Raquel e Raíssa. Às 13h de hoje, a El Toro Fuerte ganha o mundo que a gente sonhou pra ela, o nosso Torinho. E neste momento, minha gratidão por essas pessoas terem se encontrado no mesmo tempo e espaço, com os corações em arritmia com tal cena de BH, mas ritmados entre si, é infinita.

Foto: Ra Quel Domingues

 

Este texto não é uma crítica musical, nem fala sobre as influências que a banda tem, muito menos pretende contemplar as outras cenas da cidade, porque pra isso seria preciso, parece-me, estar muito bem inserido pra não pisar no calo de ninguém. E eu, como entendo de música apenas o que ela provoca em mim, não vou me arriscar a escrever um texto técnico, nem tampouco comparar ninguém ao Dylan, porque parece heresia.
Não, não é sobre a cena de BH, o título é só provocativo mesmo. É sobre a cena, a mise en scene que me contempla.  Falo deste sentimento de fazer parte de um movimento orgânico – mesmo  que digam não ser um movimento, mas um ajuntamento – que tem o poder de reunir 6, 12, 18 e muitos outros múltiplos ao redor de uma sonoridade triste e poderosa que me representa como nenhum outro representou, nem mesmo Dylan.

Talvez seja uma árdua missão explicar pra quem tá de fora, pra quem não esteve lá na Casa do Jornalista quando a ficha começou a cair ou naquele show de muito tempo atrás lá na Obra, que deixou a gente com uma lágrima no olho, uma esperança no peito, mesmo o Diego tendo achado o show uma bosta. A gente se divertiu, como a gente se divertiu! Essas coisas, por mais que eu escreva, não dá pra explicar pra vocês com fidelidade. Hoje, mais do que nunca, o meu amor é um toro fuerte e se eu não posso explicar porque é um tempo lindo pra estar vivo, é melhor que vocês mesmos ouçam.

Eu vivo em você, você vive em mim.

Aqui, escrevo normalmente sobre a vida e temas ligados a ela, é natural então, que um dia escrevesse sobre a morte de alguma forma. Há alguns dias, 41 para ser exata, minha avó Itajubi partiu para um plano diferente desse em que estamos. Partiu de repente, sem qualquer forma de aviso e nos deixou a saudade, materializada em cada coisa que nos faça lembrar da sua presença tão forte.


A morte é inevitável e na nossa fragilidade, evitamos falar sobre ela e sobre o luto. Eu, por outro lado, sempre pensei na morte como parte fundamental da vida e sempre fiz dela tema de pensamentos e conversas. A verdade é que, mesmo compreendendo a morte desta forma, essa compreensão não pareceu amenizar toda dor que esta perda ainda representa.
Não é a morte em si o motivo da tristeza, mas a despedida. Nós, egoístas que somos, queremos que eles vivam para sempre, para que possamos amá-los também para sempre. Nem cogitamos partir antes deles, para não precisar ser quem fica, quem recebe o adeus. Imagino ser essa a razão pela qual nós tentamos negociar, mesmo sabendo que a morte é definitiva. Negociamos com o universo, um braço, um vício, um apego, para tentar trazer de volta a pessoa amada. Essa negociação também é bastante triste. E, Deus, como eu negociei nos quatro dias que antecederam a partida.
A vida continua, apesar da morte. E a gente, bom, a gente fica tentando entender como lidar com a tristeza que nos abate vez ou outra. E é nos momentos em que a saudade vem suave como uma lembrança boa, que entendemos que o oposto da morte não é a vida, pois há morte na vida. O oposto da morte é o amor. Amor que é, ao mesmo tempo: muito, pouco e jamais suficiente. É ele que mantém vivas partes de quem já se foi, dentro de quem ainda vai. Pelo amor hoje eu sou Raquel, mas também sou Itajubi.


EPICENTRO ou O que há de novo Belo Horizonte?

Eu não sei vocês, mas eu estou me sentindo no olho de um furacão, no epicentro do terremoto da mudança. Não sei se isso se esse sentimento se explica pelo fato de 2015 não ter sido um ano dos mais positivos e por termos depositados em 2016 todas as nossas esperanças de dias melhores. E esperança é um trem que funciona, melhor que expectativa.
Este texto está na ponta da tecla desde o Carnaval. O Carnaval de rua de BH e o seu crescimento me fez refletir sobre a cena cultural da cidade. Não acho o crescimento ruim, quero mais é que cresça mesmo. Mas me deixou bem entediada as conversas que fazem entender que só existe isso na cidade. Sempre as mesmas bandas, sempre os mesmos shows, sempre as mesmas músicas e rolês. Até a política das casas de shows para as bandas autorais dão isso a entender.
Tava achando tudo difícil até começar a sentir uns abalos sísmicos de 7,5 pontos de magnitude na Escala “Rachel”. Existe um movimento paralelo a essa coisa de sempre que é a cena de BH, que é essa galera que pega e faz. E não é conversinha de escola de empreendedorismo não. É o pega e faz e grava e mixa e lança e banca show e toma prejuízo, mas continua pegando e fazendo. E isso, meus amigos é contagiante.

É uma sorte estar no meio desse meio. Sempre quis que a música se manifestasse de forma orgânica na minha vida e é bem assim que me sinto por fazer parte disso. É uma sensação de agradecimento ao universo para que essa fase boa não passe nunca. Me senti lisonjeada, me sinto a Patti Smith do rolê, a Kim Gordon, a garota da banda. Sinto porque tenho em mim o mesmo sentimento que elas dizem nos dois últimos livros que li. Aquela sensação de essa história é sobre mim, cala boca!

A gente tá fazendo a história. Tá rolando. O Carnaval teve fim, mas a gente ainda tá aqui, fazendo de BH a Nova York Beatnik. Nós somos a Geração Beat dos anos 2016. Nos somos o terremoto. Nós estamos vivos e vamos fazer bastante barulho.  

Não me perguntem do porquê desse vídeo ter me inspirado.

EVERY NIGGER IS A STAR

Eu quase consigo imaginar a cena, sentados em uma mesa Kendrick Lamar e Beyonce com seus planos de dominação mundial. Nessa conversa imaginária, penso que discutiram sobre a gravidade da realidade do negro nos EUA e também no mundo. Na ata dessa reunião, estava escrito em letras garrafais: EVERY NIGGER IS A STAR. E desde este dia, uma força da natureza se formou.
 
Um fenômeno que vem ganhando proporções inimagináveis e que, acredite, não vai parar. A verdade é que, todo dia um negro acorda e descobre que todo negro é uma estrela. Quando isso acontece, ele se conecta a seus irmãos e irmãs negras, encontrando em si e nos outros a força que precisava para não mais permitir que lhe abaixem a cabeça, o nariz, o cabelo crespo e o orgulho.

Existe um momento na vida do negro, em que ele acorda e decide

“Ninguém, nunca mais, irá me fazer sentir vergonha, inadequação ou subserviência pela minha raiz negra.”

eu não lembro exatamente quando isso aconteceu comigo, mas aconteceu. Encontrei no feminismo negro, nas minhas irmãs negras a força que eu precisava para tomar de volta tudo o que me foi usurpado. TUDO.

E desde então, passei a cobrar o devido reconhecimento para o meu povo negro, com juros e correção. Passei a cobrar representatividade para minhas crianças negras, se não me vejo não compro. Por isso, hoje uso meu cabelo solto, alto, vo-lu-mo-so, pra ocupar o lugar que é dele no mundo. Por isso eu questiono o feminismo branco que insiste em negar que mulheres brancas oprimem mulheres negras, pasmem!
 
Também por isso eu dou “chilique”, eu faço um escândalo, eu grito e bato o pé quando vejo apropriação cultural, quando vejo um branco ou branca levando o crédito por algo que o negro criou. Ah, mundo, depois que eu descobri que eu sou uma estrela e que todo negro é uma estrela, eu também determinei como meta pessoal fazer você mudar. E você vai mudar. Não há escolha, nem caminho de volta.
 
Reparou? O céu está cheio de estrelas. Cada uma delas é um negro ou uma negra morto pelo racismo. E você acha que serão esquecidos ou que não serão vingados? No meu céu tem Macolm X, tem Luther king, tem Carolina Maria de Jesus, tem Dandara, tem Jovelina. No meu céu também tem Cláudia, Eric Garner, tem cinco meninos negros mortos em um carro. No meu céu tem estrelas demais. Eu também tenho minhas estrelas-guia aqui na terra, por aqui tenho Bell Hooks, Angela Davis, Djamila, Stephanie.
 
No meu céu também tem Jay-Z com aquele mundo de dinheiro, pagando a fiança dos negros no protesto que também estão no meu céu, porque não existe riqueza maior para o negro e afronta maior para o branco do que ver essas estrelas brilhando livres e empoderadas, como uma grande e preta pedra no sapato! Se você acha que a maior estrela que você já viu é sol, espera até ver a nossa constelação de negros cheios de poder. Recado dado.